É preciso largar a dieta para ter uma alimentação saudável


A relação com os alimentos tem sido confusa para muitas pessoas. De tempos em tempos surgem novos alimentos milagrosos, os alimentos antigos passam a ser considerados ruins e as pessoas ficam sem saber para onde correr.
Para conversar a respeito de como ter uma alimentação saudável de forma holística, entrevistamos a nutricionista Paola Altheia, que também é responsável pelo site Não Sou Exposição e pela página no Facebook que vem desmistificando vários conceitos a respeito de saúde e corpo saudável.

Vamos aprender com ela a fazer as pazes com os alimentos e viver de forma plena e harmônica. Confira:

 

Paola Altheia é nutricionista e blogueira, atua com comportamento alimentar

Paola Altheia é nutricionista e blogueira, atua com comportamento alimentar

O que é ser saudável?

Eu poderia recorrer a uma resposta simples e dizer que ser saudável significa “se alimentar de forma equilibrada”, beber muita água, dormir oito horas por noite e correr no parque. Acontece que saúde é um conceito amplo e complexo. Saúde não é somente um bem-estar físico ou mesmo a ausência de doenças. É estar num ambiente que favoreça a saúde mental, emocional e social. É ter pleno acesso aos serviços de saúde. É viver em condições dignas. É ter senso de propósito na vida. É ter as necessidades afetivas e materiais supridas. É ter condições para o autodesenvolvimento. Precisamos analisar a questão além do pragmatismo, do discurso puramente biomédico (e farmacológico) e resgatar a integralidade do ser humano. Não temos somente um corpo físico.

Temos necessidades e desejos, e além disso a saúde emocional é um tema muito menosprezado e pouco discutido, uma vez que os valores da sociedade ocidental contemporânea (individualismo, produtividade, disciplina, autocontrole, competitividade) adoecem as pessoas. E o mercado não tem o menor interesse por indivíduos saudáveis, satisfeitos e bem resolvidos. Fabricar o mal estar é uma necessidade fundamental do capitalismo.

Verdadeiramente paradoxal é o fato de que as nossas manobras para sermos mais saudáveis podem nos deixar doentes. Quando o assunto é alimentação, posso afirmar sem pudores que a orientação do que é nutricionalmente saudável não é psiquicamente saudável. É impossível seguir a cartilha da “qualidade de vida”, sem sofrer sério comprometimento social e cognitivo. Woody Allen certa vez disse que para vivermos até os cem anos, precisamos abrir mão de tudo o que faz valer a pena viver até os cem anos. Dou a ele a razão neste ponto.

 

O que é uma alimentação saudável e consciente?

Muito mais do que analisar o que se come, deve-se também considerar como se come. A pessoa come com culpa? Mastiga o suficiente, ou “engole” a comida toda de uma vez? Come muito rápido? Come se distraindo? Percebe quando já está satisfeita, ou come ao ponto do exagero?

Estar com o corpo e a mente alinhados num único propósito quando realizamos nossas atividades é um hábito que promove significativa melhora da qualidade de vida. Com a alimentação não poderia ser diferente. Muitos dos problemas relacionados com a comida, inclusive o ganho crônico de peso, vêm do hábito do homem moderno de não ter consciência das atividades que realiza. Estamos sempre no piloto automático, e dividir o foco da mente costuma resultar num alto preço.
candyExiste muita diferença entre comer um chocolate durante um padrão de pensamento acelerado e afobado, com sentimento de arrependimento e culpa, engolindo pedaços sem sabor enquanto pensa-se no próximo… E comer com lucidez, consciência, tranquilidade, com plena percepção da textura e do sabor. Poder-se-ia dizer que comer chocolate “não é saudável”, mas a maneira que se come é o que define se a experiência é saudável. Isso é comer consciente.

 

Qual a relação entre cuidar da mente e cuidar do corpo por meio da alimentação? Conhecer a si mesmo, seus processos, seus sentimentos pode refletir na maneira de se alimentar?

A saúde emocional-mental tem muita relação com a saúde física. A saúde física deve ser preservada e construída pelo próprio indivíduo. Pessoas deprimidas e/ou que sofrem sérias questões de baixa autoestima têm muita dificuldade para sustentar hábitos saudáveis. Justamente porque não cuidamos daquilo que não nos interessa.

Existe na sociedade uma crença maluca de que se nós odiarmos o nosso corpo o suficiente, então chegará um momento em que tudo mudará para melhor. Mas abuso, palavras duras e rechaço não levam a um desejo genuíno de transformação. Não se gostar não leva ninguém a lugar nenhum e não ajuda a melhorar a saúde. Acreditar que estímulo negativo (humilhação e terrorismo) funciona é um pensamento errôneo. As pessoas que precisam emagrecer frequentemente creem que primeiro irão emagrecer, e então terão mais amor próprio. Mas a realidade é exatamente o contrário: primeiro é necessário desenvolver o amor próprio, depois o emagrecimento vem por consequência. O autoconhecimento e o amadurecimento emocional refletem 100% na maneira como nos alimentamos.

 

Como você vê a relação com os alimentos que as pessoas possuem atualmente? E como essa relação pode ser melhorada?

A relação que as pessoas têm com os alimentos atualmente é severamente desajustada. A maneira que se fala sobre os alimentos ao longo das últimas décadas é dicotômica, simplista e inflexível. Elaboro:

1) Dicotômica: faz-se a divisão entre alimentos “permitidos” e “proibidos”, “bons” e “ruins”, “certos” e “errados”. Quando existe a possibilidade de erro, nasce a culpa. Quando um indivíduo faz uma escolha alimentar [supostamente] errada, ele se sente culpado e à mercê de julgamento moral – acredita ser pior pessoa por causa do tipo de alimentos que leva à boca.

2) Simplista: os veículos de comunicação, desde programas de TV até best-sellers, enquadram os alimentos dentro das seguintes categorias: cura, mata, engorda ou emagrece. Não existe consenso a respeito das teorias científicas sobre qual seria a “dieta ideal” e isso faz com que as pessoas percam a confiança nas informações que são divulgadas e fiquem desnorteadas. Um exemplo clássico deste fenômeno é o ovo. Ele já oscilou entre alimento “bom” e “ruim” dezenas de vezes. E existe um agravante: o terrorismo. Sempre que um alimento é classificado como o vilão da vez, a mídia e o discurso biomédico se encarregam de deixar as pessoas apavoradas, com medo de ter graves doenças a partir de uma mera exposição ao alimento “proibido”.

3) Inflexível: é o pensamento de “tudo ou nada”. As pessoas acreditam que devem fazer tudo certinho… ou então não fazer nada. As crenças rígidas a respeito da alimentação saudável fazem a pessoa degringolar a cada “escorregada” que comete (coisa que nem é culpa dela – quando uma pessoa faz uma dieta restritiva, tudo conspira para que ela saia dessa situação. “Furar” a dieta é uma resposta metabólica, fisiológica e cognitiva do corpo ao cenário de privação). Dificilmente encontra-se o caminho do meio.

Diante de tudo isso, a questão que precisa ser compreendida é que não existe alimento bom ou ruim. Existem apenas alimentos. Não existe alimento vilão que engorda, nem superalimento que cura. Se alimentar de modo saudável não é a mesma coisa que ter uma atitude “8 ou 80”. O que define o que nos faz saudáveis é a relação que construímos com a comida. Acredito que a única maneira de sanar este quadro é promover a legalização dos alimentos dentro da cabeça das pessoas! Classificar alimentos gera: compulsão, culpa, medo, ansiedade e uma maior frequência do consumo dos alimentos “errados”. Boa parte dos problemas melhoraria se as pessoas conseguissem enxergar brócolis e pizza no mesmo patamar de representatividade. potato

 

Como você realiza o cuidado alimentar dos seus pacientes? Você recomenda dietas em específico?

A restrição/exclusão de determinados alimentos da rotina alimentar do indivíduo, no meu entendimento, deve-se apenas a partir de justificativas clínicas, religiosas ou ideológicas. Coletividades sadias podem consumir todos os grupos alimentares sem ressalvas (desde que de forma equilibrada e proporcional).

Eu não entrego dietas. E definitivamente não as recomendo. Simplesmente porque quando eu, Paola, determino o que um paciente vai comer, quando e quanto… Eu estou roubando a autonomia do indivíduo. A alimentação deve acontecer de dentro para fora, e não de fora para dentro. Quando uma pessoa se alimenta exclusivamente em função de estímulos externos, ela fica pendente de que alguém ou diga o que deve comer, ou que um papel a oriente. O meu propósito é ajudar a pessoa a confiar nas próprias escolhas e nos sinais do corpo. Fomos expostos a regras demais, e isso acabou deixando as pessoas assustadas e confusas.

A prática de dietas de emagrecimento provoca vários prejuízos às pessoas, sendo a compulsão e a recuperação do peso a longo prazo apenas alguns. E dissuadir o indivíduo da ideia de seguir dietas é um dos principais pilares da minha atuação. Largar as dietas é o primeiro passo para uma relação mais harmônica com a comida.
Paola Altheia atende em Curitiba, entre em contato pelo telefone (41) 99919-0610 e pelo e-mail aconselhamentonse@hotmail.com. Acesse o seu site Paola Altheia Comportamento Alimentar e o seu blog Não Sou Exposição para conhecer outros temas debatidos por ela e curta a página do Facebook.

 

Você já passou por algum momento de dificuldade em alimentar-se? Já ficou confuso(a) a respeito de como conduzir a sua alimentação? Conte sua experiência aqui nos comentários.

Deixe seu comentário