Benzedeiras e Terapeutas Holísticos: conhecimento ancestral para a saúde integral


 

Em todas as culturas do mundo conseguimos encontrar na ancestralidade diversas técnicas e modos de cura, cada uma adaptada ao meio e geralmente também às crenças.

Essas formas de reestabelecer a saúde eram em sua maior parte holísticos, tratando o ser de maneira integral. O conhecimento foi então evoluindo e se expandindo no que hoje conhecemos como Terapia Holística, em sua variedade de maneiras de levar cada pessoa ao seu estado de equilíbrio e vida plena.

Muito da cultura tradicional tem sido mantida pelo trabalho das benzedeiras, principalmente no interior do Brasil. Quem nunca ouviu falar daquela senhorinha que vivia entre as plantas, que ajudava as crianças a dormirem a noite, que tiravam o quebranto do bebê e tantas outras curas necessárias para o dia a dia?

Lia Marchi, cineasta e pesquisadora de culturas tradicionais

Buscando resgatar e manter viva a cultura do curar, benzedeiras de diversos locais do país estão se reunindo em associações e grupos em que conversam, trocam técnicas e reforçam a tradição de levar saúde a todas as pessoas.

Trabalhando a muitos anos com pesquisa das culturas tradicionais e populares, a cineasta Lia Marchi dedicou parte de seus estudos para resgatar as formas e fazeres e compreender a vida destas mulheres que se dedicam para reestabelecer a saúde da sua comunidade.

No ano de 2015, Lia lançou o documentário “Benzedeiras – Ofício Tradicional”, fruto de um trabalho que teve início no ano de 2011, que mostra os esforços e a organização das benzedeiras para manterem a tradição do seu trabalho viva e fortalecida.

Conversamos com cineasta, que nos contou um pouco das vivências que tem neste seu trabalho de pesquisa das culturas populares.

 

O que lhe motivou a pesquisar sobre o ofício das benzedeiras?

Trabalho com cultura popular há muitos anos, pesquisando músicas e festas, e descobri as benzedeiras ao poucos. Em uma premiação do IPHAN em Curitiba, tive contato com bezendeiras de Rebouças e São João do Triunfo, Paraná, pelo trabalho que elas desenvolveram de mapeamento, que contou com um grande envolvimento da comunidade local. Ouvindo suas histórias, tive a inspiração para realizar um filme e a partir de então me envolvi com pesquisas, visitas, vivências com estas mulheres.

Você vê alguma relação entre as benzedeiras e os atuais terapeutas holísticos?

Foto por Angela Oskar

Eu acredito que é o mesmo propósito, de promover a saúde, promover o bem-estar, pensar na cura de forma integral, ligado tanto ao corpo quanto aos sentimentos das pessoas. Costumo dizer que o benzimento está muito ligado ao afeto e ao carinho que as benzedeiras têm pela cura e pelas pessoas. Elas buscam realmente ajudar o próximo, então tudo aquilo que está ligado a esta tentativa de curar pela natureza, de curar pela relação entre o paciente e o terapeuta eu acredito que está próximo. As benzedeiras estão dentro deste universo de pessoas e de profissionais que buscam justamente ajudar o seu próximo com a sua sabedoria, com o seu conhecimento e também com a sabedoria da natureza, como é o caso do uso de plantas e remédios naturais.

Como as benzedeiras se veem em relação à promoção da saúde e à cura?

As benzedeiras têm uma noção muito bacana da importância delas e ao mesmo tempo elas são muito generosas e muito sábias no sentido de dizer que nem tudo o benzimento cura, não é para tudo que o remédio natural funciona. Elas também recomendam que as pessoas procurem o médico, procurem o tratamento que hoje existe graças à tecnologia e, ao mesmo tempo, as benzedeiras têm a percepção de que determinadas questões elas dominam e podem ajudar muito a comunidade, inclusive integradas aos médicos do sistema de saúde.

É muito interessante observar que as benzedeiras têm sido mais aceitas, que o tema das curas tradicionais tem vindo à tona em muitos contextos da medicina ocidental, que elas têm recebido alunos de cursos de medicina pra fazer vivências, para estar com elas um ou dois dias e trocar saberes.
Em Ouro Preto (MG), fizemos uma exibição do filme “Benzedeiras – Ofício Tradicional” para uma liga de estudantes de medicina que queriam interligar os saberes antigos à tecnologia, ao estudo formal. As benzedeiras sabem que podem somar forças com a medicina convencional e percebo que os espaços estão se abrindo tanto nas universidades como nas comunidades acadêmicas para ouvi-las e para integrar os saberes.

Encontro aproxima conhecimentos tradicionais e populares gratuitamente no Paraná

Com o objetivo de celebrar e ampliar os conhecimentos tradicionais e populares, Lia Marchi está promovendo, nos dias 20, 21 e 22 de abril de 2017, em Antonina, no Paraná, o Encontro de Tradições, que vai reunir artesãos, grupos de música e dança, benzedeiras e demais detentores de saberes tradicionais para aproximar as pessoas da rica cultura brasileira. Neste encontro ocorrerão oficinas gratuitas, cortejos e rua e atividades para promover esta união de saberes. Você pode saber mais a respeito do evento acompanhando a página do Facebook da Lia Marchi. Em breve o Portal Terapeutas Brasil também irá disponibilizar informações.

Paixão pelas tradições populares

Lia e a benzedeira Donatila, foto por Angela Oskar

Lia Marchi é cineasta, pesquisadora, professora e produtora. Iniciou carreira artística em 1990, como produtora cultural e atriz. A partir de 1998 cria e coordena o projeto Tocadores, que editou livros e filmes focados nos músicos da cultura popular, em diversas regiões do país e também em Portugal. Fundou em 1999 a Olaria Projetos de Arte e Educação, onde atua como diretora artística coordenando a realização de diversos projetos.

Há mais de 15 anos se dedica a pesquisa e divulgação das culturas tradicionais e populares, especialmente do Brasil e de Portugal. Em seus livros e filmes, aborda o rico universo das comunidades tradicionais e dos sons e sentidos das culturas locais. Atualmente divide seu tempo entre a pesquisa musical, a realização de documentários e oficinas para diversos públicos.

É autora de onze documentários e quatro livros, entre outros produtos culturais, como exposições, seminários e cursos.

 

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